Melanie andava por seu quarto um pouco distraída, balançando para lá e para cá seu vestidinho rendado. Resmungava sempre a mesma coisa.
- País das maravilhas, de onde já se viu um lugar onde tudo é bom? O céu existe, é claro, mas ele se chama céu, e não país das maravilhas.
Ouvira várias e várias histórias sobre esse tal lugar quando criança, e agora com seus vinte e poucos anos se recusava a acreditar que ele realmente existira. A gata que se espreguiçava em sua cama, já acostumada com o falatório de sua dona, resmungou baixo, com um Miauff mal humorado.
- De que vale um lugar, em que tudo é eterno Purrie? De que vale um lugar onde não há lógica?
A gata poderia ter ignorado a pergunta, como qualquer outro faria, mas indignada com a descrença da dona, junto a sua falta de sonhos e esperanças, postou-se em duas patas e, cruzando do melhor jeito que podia suas patas dianteiras, miou novamente e desatou a tagarelar.
- Não acredito que tenho uma dona tão mente fechada! Onde estão as suas esperanças?! Onde estão os seus sonhos?!
Indignada, a gata que acompanhara Melanie por boa parte de sua vida, a ponto de vê-la crescer e amadurecer, franziu a sua testa felina e bateu as batas, raivosa. Melanie por outro lado, agarrando-se a firme realidade de que gatos não podiam falar, franzir a testa e nem muito menos apoiar-se por mais do que segundos em suas patas traseiras, cobriu a boca com suas mãos e recuou alguns passos.
- Você fala?
Ela não teria pergunta pior a fazer, a gata, agindo inexplicavelmente como uma humana, revirou aqueles olhos azuis e jogou seu corpo gordo novamente na cama, fazendo subir alguns pelos branquinhos para cima, e assim, deitada, ela parecia mais um travesseiro felpudo do que uma gata falante. Melanie, não se dando por vencida, continuou a procura de uma resposta lógica para tudo.
- Você... Deve ter sofrido algum tipo de mutação ou anormalidade nas suas cordas vocais, ou então...
Purrie era persistente, levantou a pata dianteira direita para a garota e se ergueu novamente.
- Sem mais palavras, humana ingrata, por que renega tanto minhas habilidades humanas?
Purrie havia acabado de pega-la de jeito. Por que Melanie se assustava tanto com a possibilidade de um gato falar? Ela fora ensinada que animais não falavam, e que gatos não se levantavam nas pernas traseiras, e essa era a única explicação que tinha. Mas ali, com Purrie postada a sua frente, com uma carranca indignada na face, pronta para explodir em uma avalanche de pelos branquinhos, ela se viu desarmada.
- Eu não sei.
Ela respondeu, por fim, cruzando os braços e amarrando a cara, dando-se por vencida.
- Acontece que vocês, humanos, estão tão acostumados com a "normalidade", que esqueceram que ainda são meros calouros nesse mundo tão estranho.
Falou a gata, de modo sábio. E então, Melanie acordou atordoada, assustada, e seu primeiro instinto foi olhar para a sua direita, onde a gata Purrie jazia adormecida, e seu quarto permanecia na mais normalidade possível.





Fiquei curioso pra ler "O mundo de Sophia", por saber que essa crônica foi inspirada no livro. Viajei através de suas palavras, beijos =)
ResponderExcluirNOSSO CAPRICHO
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Confesso que o mundo de sofia, apesar de ser um livro muito interessante e que me inspira muito, não é do tipo de livro que me prende, então eu deixo ele mais dentro da mochila, por que pra mim ele é do tipo que se lê em filas demoradas, mas que bom que gostou, beijos ;3
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